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O mito da moral de causa e efeito
A ideia de que a moral se baseia em causa e efeito — ou a noção de que "todo mundo colhe o que planta" seja uma verdade universal — é, no mínimo, questionável.
A ideia de que a moral se baseia em causa e efeito — ou a noção de que "todo mundo colhe o que planta" seja uma verdade universal — é, no mínimo, questionável.
A lógica simplista de recompensa e punição, que tantas vezes associamos ao comportamento humano, nem sempre se confirma na prática.
Chamamos de "lei" do retorno, mas ela não acontece sempre, invariavelmente — então, não é lei coisa nenhuma.
Basta olhar ao redor: há quem minta, manipule e saia impune, enquanto outros pagam caro por dizer a verdade.
A mentira, nesse sentido, vira um reflexo dessa falha: os humanos mentem tanto porque aprenderam que o mundo não é justo o suficiente para garantir um "retorno" previsível.
A história escancara essa ilusão com exemplos gritantes:
Josef Stalin, por exemplo, mentiu, traiu e comandou a morte de milhões na União Soviética, mas morreu em paz em 1953, em sua cama, sem nunca encarar um tribunal ou uma punição à altura de seus crimes.
Em contraste, Joana d’Arc, uma jovem que falou a verdade sobre suas visões e lutou por sua fé, foi queimada viva como herege em 1431, aos 19 anos.
Stalin plantou terror e colheu poder; Joana plantou coragem e colheu uma fogueira. Onde está a justiça de causa e efeito aí?
O destino deles não seguiu uma balança moral, mas as correntes do poder, da política e do acaso.
E o que dizer de algo mais próximo, mais visceral? Uma criança de cinco anos é atropelada por um carro enquanto atravessa a rua.
Ela colheu o que plantou? Que "semente" alguém tão jovem poderia ter semeado para justificar esse fim?
A tragédia não explica, não pune, não equilibra — ela apenas acontece.
Diante disso, a ideia de uma moral baseada em regras fixas de retorno desmorona.
É essa imprevisibilidade que alimenta a mentira: se o mundo não joga limpo, por que deveríamos nós?
Mentir se torna menos um dilema ético e mais uma aposta num jogo sem árbitro.
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